Náusea no início do tratamento: hábitos à mesa que costumam ajudar
Para muita gente, as primeiras semanas com um medicamento da classe GLP-1 vêm acompanhadas de um enjoo que aparece depois das refeições, ou de uma sensação de estômago cheio que demora a passar. É desconfortável, mas é conhecido: os sintomas gastrointestinais estão entre os efeitos mais comuns desses medicamentos.
Neste texto, você vai entender por que a náusea acontece, quais hábitos à mesa costumam ajudar e quando é hora de procurar seu médico.
Por que o enjoo aparece
Os medicamentos dessa classe deixam o esvaziamento do estômago mais lento e aumentam a sensação de saciedade. Isso ajuda a comer menos, mas também significa que uma refeição grande, rápida ou muito gordurosa pode pesar mais do que pesava antes.
No estudo STEP 1, que avaliou a semaglutida no tratamento da obesidade, náusea e diarreia foram os efeitos adversos mais frequentes. Segundo os autores, esses efeitos costumavam ser passageiros, de intensidade leve a moderada, e diminuíam com o tempo. Isso não quer dizer que todo mundo vai sentir, nem que vai passar igual para todos, mas ajuda a entender que o começo do tratamento costuma ser a fase mais sensível.
Hábitos à mesa que costumam ajudar
Um consenso de especialistas publicado em 2023 e recomendações para a prática clínica publicadas em 2022 reúnem medidas simples de alimentação para reduzir esses sintomas. Entre elas:
- Coma devagar. Mastigue bem e faça pausas. A saciedade chega antes do que você imagina.
- Prefira porções menores. Em vez de três pratos grandes, pode funcionar melhor fazer refeições menores, com mais frequência ao longo do dia.
- Pare quando estiver satisfeito. Não é preciso terminar o prato. Comer além da conta é um gatilho comum para o enjoo.
- Coma quando tiver fome. Forçar uma refeição sem fome nenhuma costuma piorar o desconforto.
- Vá com calma nas gorduras. Frituras e comidas muito gordurosas tendem a pesar mais no estômago.
- Cuidado com bebidas gaseificadas e álcool. Refrigerantes, água com gás e bebidas alcoólicas podem aumentar o desconforto.
- Não se deite logo depois de comer. Dê um tempo para a digestão antes de deitar.
- Evite cheiros fortes. Para algumas pessoas, o cheiro de comida sendo preparada já basta para enjoar.
- Tenha opções leves por perto. Biscoitos de água e sal, maçã ou gengibre aparecem entre as sugestões para os momentos de enjoo.
E a proteína nos dias de enjoo?
Quando o estômago está sensível, a tendência é deixar a proteína de lado. Mas dá para encaixá-la de formas mais leves:
- Alimentos frios ou de textura macia, como iogurte natural, ricota e ovos mexidos, costumam descer melhor do que carnes pesadas.
- Comece a refeição pela proteína. Se você só consegue comer metade do prato, que seja a metade com a fonte de proteína.
- Porções pequenas ao longo do dia ajudam a somar sem pesar.
Hidratação também conta
Quando se come menos, também se bebe menos sem perceber, já que parte da água do dia vem dos alimentos. Ter uma garrafa por perto e beber em pequenos goles ao longo do dia, em vez de grandes volumes de uma vez, pode ser mais confortável para o estômago.
Quando procurar o médico
O enjoo leve e passageiro é uma coisa. Outra é quando ele atrapalha a sua vida ou vem acompanhado de outros sinais. Procure seu médico se:
- o enjoo não melhora com as semanas ou impede você de comer e beber;
- os vômitos são frequentes, principalmente se você não consegue manter líquidos;
- aparecem sinais de desidratação, como boca muito seca, pouca urina ou tontura;
- você sente dor forte na barriga que não passa, com ou sem vômitos.
Qualquer mudança no tratamento, inclusive na forma de usar o medicamento, deve ser decidida com o seu médico. Não altere nada por conta própria: siga a bula e leve suas dúvidas para a consulta.
Anotar ajuda a enxergar o padrão
Às vezes o enjoo tem gatilhos que só ficam claros quando você anota: uma refeição muito grande, um prato frito, comer com pressa. Registrar o que comeu e como se sentiu por alguns dias ajuda a perceber esses padrões e dá informações concretas para conversar com a equipe que acompanha seu tratamento.
Fontes
- Gorgojo-Martínez JJ, et al. Clinical Recommendations to Manage Gastrointestinal Adverse Events in Patients Treated with Glp-1 Receptor Agonists: A Multidisciplinary Expert Consensus. Journal of Clinical Medicine, 2023.
- Wharton S, et al. Managing the gastrointestinal side effects of GLP-1 receptor agonists in obesity: recommendations for clinical practice. Postgraduate Medicine, 2022.
- Wilding JPH, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, 2021.
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